O porquê do meu cansaço

“Veja bem Mariana, a diferença é que ela fala tudo que pensa e você pensa sobre tudo que fala”.

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Réplica a Amanda Audi

Audi, faz tempo que venho arquitetando essa resposta para você, por causa desse seu post aqui. Não que ela seja difícil de elaborar, os fatos falam por si. Mas tenho andado bem ocupada nas últimas semanas (finalmente!) e só agora achei o tempo para escrever. E essa resposta não é só para você, mas também para todos os seres do universo que teimam em dizer que os Rolling Stones são melhores que Beatles.

Muito bem. Estudar música popular na Inglaterra acaba com toda e qualquer validade que a afirmação “Rolling Stones é melhor que Beatles” possa ter. Desculpe, Audi, mas essa é uma discussão que não existe em primeiro lugar. Os Beatles são parte importante da economia inglesa – o que entra no conceito de “economia cultural”, muito discutido por aqui – e marco na história do pop. Aqui ninguém mais vê Beatles como gosto, e sim como unanimidade. Me mostre uma cidade que tenha sua economia baseada nos Rolling Stones, me mostre um mestrado sobre Música Popular que tenha Rolling Stones em seu programa como assunto crucial, me mostre uma revolução de verdade feita por eles na estrutura da Indústria Musical e eu poderei pensar em discutir sobre isso. Mas é claro que você não conseguirá fazer nada disso. Foi mal.

E tem mais: ambos Paul McCartney e Mick Jagger mantêm títulos reais. Mas eu tenho certeza de que a Rainha se enganou quando entregou o título ao Jagger. Coitada, depois de anos sendo impressa em todas as notas e se submetendo a constantes injeções de formol, imagino que deva ter se cansado um pouco mesmo. Um cara que sensualiza igual o Mick Jagger deveria ter recebido o título de Lady. E você sabe que as Ladys não são tão importantes quanto os Sir’s, Audi. Foi mal.

Tem mais ainda: o Mick Jagger nasceu no sul da Inglaterra, Amandola. Os Rolling Stones são considerados de Londres. Já os Quatro Filhos das Puta* nasceram em Liverpool. Eu preciso ressaltar uma coisa: os ingleses do sul são bem educados e com sotaque da BBC, Audi. Favorecidos pela Thatcher. Me diga se você realmente não acha que o comportamento dos Stones reflete o tipo “eu-tive-tudo-que-quis-na-vida-mas-preferi-as-drogas-porque-a-vida-é-chata”. Já os Beatles são operários do norte. Eram da classe trabalhadora. Eram da galera que levava frango assado para a praia junto com um cooler cheio de latinha de Brahma. Eram da galera que fazia um churrasquinho no domingo usando havaianas brancas com tiras azuis (ou pretas). Muito mais legal, Audi. Foi mal.

Considerando essa argumentação altamente embasada, só posso concluir que as pessoas “mais bacanas” que você mencionou na verdade se utilizam de argumentos inválidos. São, portanto, cientificamente incoerentes. Quero só ver você rebater tudo isso. Lembrando que numa democracia, todos têm o direito de resposta. Aguardo sua tréplica.

*Apelido carinhoso que eu, a Audi, o Pupo e a Flávia inventamos durante qualquer conversa de bar.

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Efeitos de Liverpool em um cérebro curitibano

Morar 10 meses numa cidade igual a essa mexe com todas as percepções. Algumas dessas percepções reviradas eu só enxerguei depois de passar o mês em Curitiba.

Em primeiro lugar, sobre as calças jeans:  ultimamente tenho achado que pareço lésbica (absolutamente nada contra elas, ok pessoal?) por usar jeans normalmente, como os usava em Curitiba. Aqui em Liverpool, mesmo quando os termômetros marcam temperaturas bem negativas, as mulheres usam saias ou vestidos menores em comprimento que camisetas. E as únicas mulheres que usam calças jeans são lésbicas ou estrangeiras. Sem exagero. Com essa minha cara nada rosada, minha pele nada alaranjada, meu cabelo nada loiro e o meu sotaque pseudo-americano, fico esperando que a impressão mais óbvia seja a segunda. Mesmo assim, fica o pensamento, “essas pessoas que estão me olhando agora estão se perguntando se eu sou mesmo lésbica”.

Supermercados. Como não há ninguém designado para colocar compras na sacola, os clientes devem fazer isso, e usando suas próprias sacolas reutilizáveis. E também devem ser rápidos para não deixar o próximo cliente esperando. Por conta disso, pagar as compras, para mim, se tornou um jogo de velocidade, e um jogo muito divertido. Na hora em que coloco os itens na esteira, já os coloco estrategicamente. “Isso irá com isso na sacola 1, e aquilo irá com aquilo na sacola 2”. Depois, me posiciono. Largo todas as coisas que podem me atrapalhar no chão, abro as  bolsas reutilizáveis e a mochila também. Em mente, sempre o planejamento de onde colocarei o quê. Quando o último cliente termina sua rodada e a moça do caixa pega meu primeiro item, o jogo tem início. Posiciono-me rapidamente ao lado oposto da esteira e começo a guardar as compras nas sacolas, sempre de acordo com o plano. Às vezes acontece de o plano precisar ser mudado por falta de espaço, e isso garante uma dose de adrenalina adicional. A performance durante a rodada pode ser avaliada conforme o número de itens computados no caixa que ainda não foram guardados. Se não passarem de 2, isso significa que a performance está sendo excepcional. Quando a moça do caixa termina de passar o último item, o tempo acaba. Se consigo guardar tudo antes disso, sem deixá-la esperando para anunciar-me o total a pagar, o jogo está ganho.

(Além disso, antes de iniciar sua rodada, você pode, internamente ou em português, tirar sarro do jogador anterior a você, se este não conseguir uma boa performance.)

Dinheiro gasto com álcool. Aqui eu gastava facilmente 20 libras por noite saída, o que convertido dá em torno de 60 reais. 60 REAIS! Que isso é um absurdo eu só percebi depois de voltar para Curitiba por um mês e ver quanto eu gasto com bebidas por lá. 10 reais por noite com direito a bolinho de carne e coxinhas feitos na hora. Por conta disso, agora tenho uma nova política: NUNCA ultrapassar 10 libras por noite. Para obedecê-la, às vezes é necessário puxar conversa com caras aleatórios – 10 libras não dão mais que 3 copos em certos bares -,  que, por costume da cidade, com certeza pagarão bebidas às mulheres com quem conversam. Meu esquema é geralmente o seguinte: falo com o cara enquanto dura a bebida – como se o copo fosse uma espécie de ampulheta e a areia fosse a cerveja- e depois aceno para o primeiro amigo que passa, dizendo bem alto e com gestos exagerados, “ah, finalmente achei você!!”. Aí saio de cena.

Outra alternativa para gastar pouco e beber decentemente é ir aos piores pubs de Liverpool. Neles você encontra Carlsberg pela metade do preço e músicas que dão vontade de enfiar um copo em cada ouvido. Por conta disso, morar aqui também significa se acostumar com remixes vagabundos de Jennifer Lopez – prova definitiva de que parâmetros mudam muito quando se mora nessa cidade.

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Guia de sobrevivência europeu – Capítulo 2

Bélgica – Jamais se confunda: quando se está na Bélgica, NÃO se está na Holanda. MUITO MENOS na França. Os belgas vão se irritar profundamente se você confundir a nacionalidade deles. Inclusive, depois de um tempo caminhando, você provavelmente verá uma placa com o escrito “Belgique”, ou “België”, afixada na calçada. Isso mesmo. Não é nenhum sinal de “não estacione”, nem um aviso de “é proibido virar”. Nem mesmo um indicativo de onde encontrar monumentos históricos. É uma placa dizendo “Bélgica”. Só isso. “Bélgica”.

O melhor dessa história é que você vai sim, e muitas vezes, confundir-se com as nacionalidades. Principalmente se estiver em companhia dos belgas que falam francês. Durante 80% do tempo você vai pensar, “caramba, esses franceses são mesmo muito engraçados”. E são eles que vão se irritar quando você acidentalmente os chamar assim. (Sobre os que falam holandês eu não sei muito bem. Mas essa é uma língua tão bizarra que você pode confundi-la com alemão, inglês, francês, russo, qualquer coisa, mas jamais vai ouvi-la na rua e pensar, “ah, holandeses passando”. Acredito que o holandês foi criado especialmente para gerar nomes macabros de vilões ou cientistas malucos, algo como “Van Der Velden”).

Saiba que você não precisará comer nada além de chocolate e beber coisa alguma além de cerveja. Aliás, você nem vai querer chocolate. Uma vez em que provar qualquer cerveja belga, você esquecerá que existe comida na face da terra. Isso facilitará sua embriaguez e permitirá que você confunda belgas com franceses sem maiores constrangimentos.

(Esse último parágrafo quase me fez chorar. Lembrar da cerveja de lá é um pouco como lembrar dos meus amigos que ficaram no Brasil.)

Você não terá problemas para conversar com as pessoas. Apesar de eles ignorarem o seu “je ne parle pa Français” – exatamente como os franceses – e continuarem falando normalmente como se você tivesse dito “por favor, converse comigo”, você encontrará muitas pessoas que falam outras línguas – esse ponto, completamente oposto aos franceses. Eu mesma encontrei pelo menos uns 3 falantes de português numa festa só.

Uma coisa amável dos belgas é que eles são meio hippies. Não do tipo eu-sou-muito-louco-quer-comprar-uma-pulseira-de-arame-vagabundo-?, mas do tipo eu-não-me-importo-com-o-que-visto-e-uso-calças-velhas-e-surradas. Tá certo que eles são ricos mesmo, mas o verbo “ostentar” parece não existir para eles. Por isso eu acho os belgas muito legais. Fazem a melhor cerveja do mundo, enrolam um baseado no meio do bar bem de boa, usam calças surradas e dirigem assustadoramente mal – mas sempre de uma maneira muito feliz.

Vamos indo em doses homeopáticas. Eu ainda tenho guias sobre os alemães, ucranianos e ingleses, mas os deixarei para os próximos capítulos. Você pode ler o capítulo número 1 aqui.

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A pessoa mais chata da Europa ou Sobre meu retorno

Saí da minha casa em Liverpool no último sábado, às 4 horas da manhã, sem ter dormido um minuto (julguei que isso me ajudaria a suportar as 12 horas em que permaneceria praticamente imóvel e comendo comidas enroladas em plásticos dispostas dentro de bandejinhas de papelão). Estava completamente desanimada por conta da rotina dos meus últimos meses na cidade, e também por causa da cidade – que, como comentei na small talk que tive com Fernando Meirelles em outra ocasião, é bastante escura e macabra (o Meirelles, aliás, é uma história que eu ainda não contei, pretendo consertar isso logo). Mas admito que o desânimo não durou. Logo no começo da jornada, o taxista que me levou até o aeroporto de Liverpool se impressionou incrivelmente por eu ter mencionado, em algum ponto da conversa, que nosso país havia sido colônia de Portugal. Isso me deixou feliz de volta. Lembrei que finalmente tiraria férias das expressões de extrema surpresa em resposta à minha confissão de que não falo espanhol.

Voei de Liverpool para Amsterdam. Na sala de espera para o vôo que me levaria até São Paulo, experimentei de novo a sensação de estar em um local repleto de brasileiros, depois de 9 meses com no máximo dois ou três (ou quatro, para não mentir) conterrâneos no mesmo recinto que eu. Senti uma alegria inexplicável, até um pouco idiota, daquelas alegrias que vêm sem muito motivo e não te deixam sentir mais nada. Eu gritava coisas em português por orgulho besta e ignorava completamente meu passaporte italiano, que já não servia para nada (ok, servia para me tirar de Amsterdam, ok).

Não que eu ache o Brasil o melhor país do mundo. Não que eu ache que a vida aqui seja perfeita e que pobres e segregação racial não existam no país. Mas eu não agüento por muito tempo ser amassada e comprimida a um volume bem pequeno por um bando de gente que não sabe nada de onde eu venho. Eu imagino que por isso eu deva ser a pessoa mais chata da Europa. Quando eu chego aos lugares, tenho certeza de que meus colegas pensam algo como “ótimo, mais palestras sobre o Brasil”, ou “ótimo, mais opiniões desnecessárias ditas a um volume absurdo”.  Coitada mesmo da minha vizinha de baixo, também minha colega de classe – eu a chamo de amiga, mas não sei se ela consegue fazer o mesmo. Por conta do chão fino, escuta tudo que faço como se eu estivesse ao seu lado. Estou certa de que ela não agüenta mais me ouvir tocar 5 vezes por dia Canto de Ossanha, Romaria e Água de Beber. Eu imagino que nesse exato momento ela esteja dentro do meu apartamento em Liverpool queimando todas as minhas partituras (Emily, fique sabendo que eu trouxe todas as minhas partituras preferidas. Você não vai se livrar de mim tão cedo. Mas eu estou te dando um mês de férias, você não tem do quê reclamar).

Eu não faço isso por mal, e nem me sinto bem falando tanto daqui. Mas é que eu gosto mesmo do Brasil, principalmente porque sou musicista.  E não me entendam errado, morar na Europa é muito legal. Todo dia eu penso que essa oportunidade que estou tendo é muito massa, mesmo. Mas eu sei que não ficaria lá mais do que preciso, justamente por o meu “material” de estudo ser tão brasileiro.

Voltando para a viagem, já a partir do momento em que cheguei a Guarulhos, para fazer a segunda escala, senti uma mudança profunda em mim. Percebi nas pessoas daqui uma elevação na voz e uma maneira firme de pronunciar as palavras que não percebia antes. Até mesmo naquelas pessoas que não possuem firmeza nenhuma nas palavras que pronunciam eu vi isso. E vi também que morar sozinha em um país bem longe do seu faz você conseguir as coisas de que precisa mais facilmente. Finalmente acho que estou aprendendo a ser cara de pau, qualidade que eu aprecio tanto nas outras pessoas e que só consigo achar em quantidades ínfimas em mim mesma.

Quando cheguei em casa, achei que realmente era outra pessoa, e que eu nunca mais me recuperaria do choque de viver em outro país. Mas não é bem assim. Me tornei curitibana de novo em questão de três dias, quatro no máximo. Curitibana com algumas mudanças.

Ah é, eu queria aproveitar para ser bem brega e dizer o quanto me sinto feliz por ter criado tudo isso que eu criei nessa cidade, junto com quem foi e ainda é parte da minha vida. As ligações que tenho recebido dos amigos e da família, os almoços, jantas, cafés e cervejas que tenho marcado com eles, as declarações de saudades, não consigo dizer o quanto sou feliz por causa disso. Não é fácil achar amigos tão próximos e queridos. Não é fácil manter o equilíbrio familiar, nem é comum a sorte de ganhar, quem sabe do acaso, essas pessoas que me apóiam e me carregam nos ombros repetidas vezes. Acredito que me doei um pouco (ou muito) para muita gente durante os anos. E eu nunca sei bem se gosto ou não dessa característica em mim. Ela já me frustrou algumas vezes. Por outro lado, eu tenho muito. Muito mesmo.

Não sei se conseguirei construir essa proximidade com as pessoas lá de fora. Volta e meia sou extremamente irritante com meus discursos ufanistas. Mas é só porque eu amo o que tenho aqui, amigos, família e a música. Volto para Liverpool mês que vem, e estou convencida de que voltarei 90 vezes mais chata do que já era. Emily, por favor, aumente seu estoque de vinho e compre tampões de ouvido, se eu já não lhe fiz comprá-los.

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Contragolpe da semana

Roubei o título da Audi para dizer que tem post novo meu no contragolpes: http://contragolpes.wordpress.com/2010/06/09/sobre-a-iliteracia-das-casas/

Prometo que dentro do prazo de dois ou três dias escreverei um texto exclusivo para meu blog. Semana passada eu estava muito ocupada sendo roubada por um taxista em Kiev.

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Guia de sobrevivência Europeu

Escrevi um guia sobre como sobreviver nos países que visitei até agora. Ficou engraçado dessa vez (eu juro), tá lá no Contragolpes. Dá uma olhada: http://contragolpes.wordpress.com/2010/06/01/guia-de-sobrevivencia-europeu-capitulo-1/

O Contragolpes é uma junção de ex estudantes de jornalismo todos felizes por não terem sido (ainda) engolidos pelo mercado de trabalho. Vale a pena conferir.

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