Saí da minha casa em Liverpool no último sábado, às 4 horas da manhã, sem ter dormido um minuto (julguei que isso me ajudaria a suportar as 12 horas em que permaneceria praticamente imóvel e comendo comidas enroladas em plásticos dispostas dentro de bandejinhas de papelão). Estava completamente desanimada por conta da rotina dos meus últimos meses na cidade, e também por causa da cidade – que, como comentei na small talk que tive com Fernando Meirelles em outra ocasião, é bastante escura e macabra (o Meirelles, aliás, é uma história que eu ainda não contei, pretendo consertar isso logo). Mas admito que o desânimo não durou. Logo no começo da jornada, o taxista que me levou até o aeroporto de Liverpool se impressionou incrivelmente por eu ter mencionado, em algum ponto da conversa, que nosso país havia sido colônia de Portugal. Isso me deixou feliz de volta. Lembrei que finalmente tiraria férias das expressões de extrema surpresa em resposta à minha confissão de que não falo espanhol.
Voei de Liverpool para Amsterdam. Na sala de espera para o vôo que me levaria até São Paulo, experimentei de novo a sensação de estar em um local repleto de brasileiros, depois de 9 meses com no máximo dois ou três (ou quatro, para não mentir) conterrâneos no mesmo recinto que eu. Senti uma alegria inexplicável, até um pouco idiota, daquelas alegrias que vêm sem muito motivo e não te deixam sentir mais nada. Eu gritava coisas em português por orgulho besta e ignorava completamente meu passaporte italiano, que já não servia para nada (ok, servia para me tirar de Amsterdam, ok).
Não que eu ache o Brasil o melhor país do mundo. Não que eu ache que a vida aqui seja perfeita e que pobres e segregação racial não existam no país. Mas eu não agüento por muito tempo ser amassada e comprimida a um volume bem pequeno por um bando de gente que não sabe nada de onde eu venho. Eu imagino que por isso eu deva ser a pessoa mais chata da Europa. Quando eu chego aos lugares, tenho certeza de que meus colegas pensam algo como “ótimo, mais palestras sobre o Brasil”, ou “ótimo, mais opiniões desnecessárias ditas a um volume absurdo”. Coitada mesmo da minha vizinha de baixo, também minha colega de classe – eu a chamo de amiga, mas não sei se ela consegue fazer o mesmo. Por conta do chão fino, escuta tudo que faço como se eu estivesse ao seu lado. Estou certa de que ela não agüenta mais me ouvir tocar 5 vezes por dia Canto de Ossanha, Romaria e Água de Beber. Eu imagino que nesse exato momento ela esteja dentro do meu apartamento em Liverpool queimando todas as minhas partituras (Emily, fique sabendo que eu trouxe todas as minhas partituras preferidas. Você não vai se livrar de mim tão cedo. Mas eu estou te dando um mês de férias, você não tem do quê reclamar).
Eu não faço isso por mal, e nem me sinto bem falando tanto daqui. Mas é que eu gosto mesmo do Brasil, principalmente porque sou musicista. E não me entendam errado, morar na Europa é muito legal. Todo dia eu penso que essa oportunidade que estou tendo é muito massa, mesmo. Mas eu sei que não ficaria lá mais do que preciso, justamente por o meu “material” de estudo ser tão brasileiro.
Voltando para a viagem, já a partir do momento em que cheguei a Guarulhos, para fazer a segunda escala, senti uma mudança profunda em mim. Percebi nas pessoas daqui uma elevação na voz e uma maneira firme de pronunciar as palavras que não percebia antes. Até mesmo naquelas pessoas que não possuem firmeza nenhuma nas palavras que pronunciam eu vi isso. E vi também que morar sozinha em um país bem longe do seu faz você conseguir as coisas de que precisa mais facilmente. Finalmente acho que estou aprendendo a ser cara de pau, qualidade que eu aprecio tanto nas outras pessoas e que só consigo achar em quantidades ínfimas em mim mesma.
Quando cheguei em casa, achei que realmente era outra pessoa, e que eu nunca mais me recuperaria do choque de viver em outro país. Mas não é bem assim. Me tornei curitibana de novo em questão de três dias, quatro no máximo. Curitibana com algumas mudanças.
Ah é, eu queria aproveitar para ser bem brega e dizer o quanto me sinto feliz por ter criado tudo isso que eu criei nessa cidade, junto com quem foi e ainda é parte da minha vida. As ligações que tenho recebido dos amigos e da família, os almoços, jantas, cafés e cervejas que tenho marcado com eles, as declarações de saudades, não consigo dizer o quanto sou feliz por causa disso. Não é fácil achar amigos tão próximos e queridos. Não é fácil manter o equilíbrio familiar, nem é comum a sorte de ganhar, quem sabe do acaso, essas pessoas que me apóiam e me carregam nos ombros repetidas vezes. Acredito que me doei um pouco (ou muito) para muita gente durante os anos. E eu nunca sei bem se gosto ou não dessa característica em mim. Ela já me frustrou algumas vezes. Por outro lado, eu tenho muito. Muito mesmo.
Não sei se conseguirei construir essa proximidade com as pessoas lá de fora. Volta e meia sou extremamente irritante com meus discursos ufanistas. Mas é só porque eu amo o que tenho aqui, amigos, família e a música. Volto para Liverpool mês que vem, e estou convencida de que voltarei 90 vezes mais chata do que já era. Emily, por favor, aumente seu estoque de vinho e compre tampões de ouvido, se eu já não lhe fiz comprá-los.