Logo deixarei a Inglaterra e estarei a caminho do continente europeu mais uma vez, para depois voltar pra onde tudo começou. E a fim de antecipar minha saudade dessa terra cinzenta e tentar evitar passar por meses de negação, decidi voltar a escrever para contar sobre o que mudou em mim. Os cenários mudam, o corpo muda, a cabeça muda, tudo parece que muda e deixa a gente num estado de limbo respiratório ou de sei lá o quê, por quanto tempo? Eu tenho 24 anos, quem sabe um dia o movimento pare? Quem sabe um dia esse estado de inércia, de matérias se chocando e se juntando em algo que às vezes não dura mais do que uma semana, ou às vezes mais do que um dia, sem ter pena de ninguém, desacelere? Até parar? Ou será que não? O que meus pais diriam sobre isso? O que minha vó diria sobre isso?
Há algum tempo, escrevi um texto bem do meu tipo, inflamado, sobre o fato de, na Europa, injustiças históricas não serem devidamente reconhecidas, em particular a injustiça da colonização das Américas. E no final do texto me referi a Raul Seixas, afirmando que um dia escreveria a “Balada da Exploração no Século XVI”. Bem, hoje, admitindo que não consigo pensar em nenhuma composição do Seixas que aborde o tema mesmo que de longe (aceito indicações de alguém que realmente conheça o trabalho dele), gostaria de fazer, com um pouco mais de cuidado, uma referência a uma composição em específico para continuar com o texto – essa tendo se repetido milhares de vezes no meu CD player durante a adolescência -, Metamorfose Ambulante. E mesmo a referência soando um pouco como um “toca Raul!” gritado por qualquer bêbado inconveniente durante qualquer show, é isso, é isso mesmo. Como não mudar meu modo de pensar sendo que a vida se desagrega em pedacinhos a todo minuto? Mas tem coisas que ficam, não? Tem uma estrutura ali que vai estar sempre ali em mim, ou será que estou enganada?
A estrutura que vai estar sempre ali: injustiças históricas devem ser reconhecidas. Devem ser abertamente expostas sim, com o mais duro dos ceticismos. Esse, acredito, é um pilar do meu entendimento social e histórico (novos, uns embriões) que acredito estará sempre presente. Mas, esse processo de reconhecimento envolve mudanças um pouco diferentes, aquelas que não são imediatas nem constantes, aquelas que não são naturais: mudanças no ensino da História e consequentemente na compreensão de fenômenos sociais. Essas são quase uma tortura de tão devagar que andam. E violência não resolve violência. Devo reagir a um acontecimento violento com mais pensamentos violentos? É. É exatamente isso que mudou desde a última vez que escrevi sobre o tema. É exatamente isso que a Inglaterra me ensinou. Se você deseja ser compreendido, não aja como um idiota. Você receberá um comportamento idiota em retorno. Como se referir a uma injustiça histórica de modo tão veemente, ignorando outras injustiças? Coréia do Norte? China? Oriente Médio? O que você tem a dizer sobre isso, Mariana? E quem disse que a exploração no seu continente merece mais atenção do que a exploração em outros blocos enormes de terra cheios de gente que passam por coisas que jamais poderá descrever?
Compreensão. Essa se dá na esfera do dia-a-dia, não na dos livros. Respeito. Levante-se e verá pessoas à sua volta. Na Inglaterra, elas com certeza terão tantas histórias, batalhas próprias, diferentes para contar. Paquistaneses, Irlandeses, Ingleses, Indianos, Chineses, Coreanos, Alemães, Brasileiros, Angolanos, Espanhóis, Chilenos, Cabo-Verdianos, Belgas, Búlgaros, Ucranianos, Japoneses e tantos, tantos mais, todos morando juntos num pedaço de terra que insistem dizer possuir clima ameno. Como não aprender com eles? Como não se desagregar a cada instante?
É necessário deixar nossa mentalidade de colonizado para trás. Ela está no passado, já lutou pelo que tinha que lutar, já fez suas conquistas. Os Mutantes, Gil, Caetano, Tom Jobim, Luiz Bonfá – S2 pra ele, se não ouviram ainda, por favor. Recomendo as gravações com Stan Getz feitas nos anos 60 – e uma multiplicidade de outros músicos (e cineastas, atores, peço desculpas por só saber falar de música) já falaram tudo que deveria ser falado. Abriram caminho para a constituição de um ‘Espaço Brasileiro’, com referência a Canclini. Hoje, a gente pode dizer que já tem na cabeça que é necessário soberania e mão firme pra governar um país como o nosso. Sim, sim, isso é só o começo. O Estado deve investir na criação de um espaço realmente democrático, um espaço baseado na premissa de que todas as vozes presentes numa sociedade (no caso, a brasileira) devem ser ouvidas, e tenho consciência de que esse espaço ainda está longe de ser criado, apesar da Internet estar aí para nos ajudar. Mas o que eu quero deixar como pergunta é: a mentalidade de colonizado nos ajuda a criar tal espaço, onde todos podem ser ouvidos e respeitados? Sei que já saio da esfera da América do Sul ao perguntar isso e envolvo outros problemas, mas aí é onde conto com a colaboração de vocês que sempre comentam por aqui para construir pensamentos mais interessantes do que esses expostos nesse meu esboço. Outra pergunta: quando conversamos com qualquer alguém ‘internacional’, que por algum motivo ainda não esclarecido, não leia sobre a América do Sul, e conservamos certa arrogância e aquela faísca violenta inconfundível no olhar – que vi tantas vezes por aqui – ao responder, “não, nós não falamos espanhol” à dúvida do interlocutor, o que expomos sobre nós mesmos?
Tento estabelecer essa conversa virtual de boteco para antecipar minhas idas ao bar com vocês daqui a alguns meses. Obrigado pelos comentários maravilhosos deixados aqui desde a minha primeira postagem internacional, que muitas vezes acabaram se tornando muletas nas minhas horas de perna quebrada.

