Auto réplica à “Balada da exploração no século XVI”, ou Não à mentalidade do dominado

Logo deixarei a Inglaterra e estarei a caminho do continente europeu mais uma vez, para depois voltar pra onde tudo começou. E a fim de antecipar minha saudade dessa terra cinzenta e tentar evitar passar por meses de negação, decidi voltar a escrever para contar sobre o que mudou em mim. Os cenários mudam, o corpo muda, a cabeça muda, tudo parece que muda e deixa a gente num estado de limbo respiratório ou de sei lá o quê, por quanto tempo? Eu tenho 24 anos, quem sabe um dia o movimento pare? Quem sabe um dia esse estado de inércia, de matérias se chocando e se juntando em algo que às vezes não dura mais do que uma semana, ou às vezes mais do que um dia, sem ter pena de ninguém, desacelere? Até parar? Ou será que não? O que meus pais diriam sobre isso? O que minha vó diria sobre isso?

Há algum tempo, escrevi um texto bem do meu tipo, inflamado, sobre o fato de, na Europa, injustiças históricas não serem devidamente reconhecidas, em particular a injustiça da colonização das Américas. E no final do texto me referi a Raul Seixas, afirmando que um dia escreveria a “Balada da Exploração no Século XVI”. Bem, hoje, admitindo que não consigo pensar em nenhuma composição do Seixas que aborde o tema mesmo que de longe (aceito indicações de alguém que realmente conheça o trabalho dele), gostaria de fazer, com um pouco mais de cuidado, uma referência a uma composição em específico para continuar com o texto – essa tendo se repetido milhares de vezes no meu CD player durante a adolescência -, Metamorfose Ambulante. E mesmo a referência soando um pouco como um “toca Raul!” gritado por qualquer bêbado inconveniente durante qualquer show, é isso, é isso mesmo. Como não mudar meu modo de pensar sendo que a vida se desagrega em pedacinhos a todo minuto? Mas tem coisas que ficam, não? Tem uma estrutura ali que vai estar sempre ali em mim, ou será que estou enganada?

A estrutura que vai estar sempre ali: injustiças históricas devem ser reconhecidas. Devem ser abertamente expostas sim, com o mais duro dos ceticismos. Esse, acredito, é um pilar do meu entendimento social e histórico (novos, uns embriões) que acredito estará sempre presente. Mas, esse processo de reconhecimento envolve mudanças um pouco diferentes, aquelas que não são imediatas nem constantes, aquelas que não são naturais: mudanças no ensino da História e consequentemente na compreensão de fenômenos sociais. Essas são quase uma tortura de tão devagar que andam. E violência não resolve violência. Devo reagir a um acontecimento violento com mais pensamentos violentos? É. É exatamente isso que mudou desde a última vez que escrevi sobre o tema. É exatamente isso que a Inglaterra me ensinou. Se você deseja ser compreendido, não aja como um idiota. Você receberá um comportamento idiota em retorno. Como se referir a uma injustiça histórica de modo tão veemente, ignorando outras injustiças? Coréia do Norte? China? Oriente Médio? O que você tem a dizer sobre isso, Mariana? E quem disse que a exploração no seu continente merece mais atenção do que a exploração em outros blocos enormes de terra cheios de gente que passam por coisas que jamais poderá descrever?

Compreensão. Essa se dá na esfera do dia-a-dia, não na dos livros. Respeito. Levante-se e verá pessoas à sua volta. Na Inglaterra, elas com certeza terão tantas histórias, batalhas próprias, diferentes para contar. Paquistaneses, Irlandeses, Ingleses, Indianos, Chineses, Coreanos, Alemães, Brasileiros, Angolanos, Espanhóis, Chilenos, Cabo-Verdianos, Belgas, Búlgaros, Ucranianos, Japoneses e tantos, tantos mais, todos morando juntos num pedaço de terra que insistem dizer possuir clima ameno. Como não aprender com eles? Como não se desagregar a cada instante?

É necessário deixar nossa mentalidade de colonizado para trás. Ela está no passado, já lutou pelo que tinha que lutar, já fez suas conquistas. Os Mutantes, Gil, Caetano, Tom Jobim, Luiz Bonfá – S2 pra ele, se não ouviram ainda, por favor. Recomendo as gravações com Stan Getz feitas nos anos 60 – e uma multiplicidade de outros músicos (e cineastas, atores, peço desculpas por só saber falar de música) já falaram tudo que deveria ser falado. Abriram caminho para a constituição de um ‘Espaço Brasileiro’, com referência a Canclini. Hoje, a gente pode dizer que já tem na cabeça que é necessário soberania e mão firme pra governar um país como o nosso. Sim, sim, isso é só o começo. O Estado deve investir na criação de um espaço realmente democrático, um espaço baseado na premissa de que todas as vozes presentes numa sociedade (no caso, a brasileira) devem ser ouvidas, e tenho consciência de que esse espaço ainda está longe de ser criado, apesar da Internet estar aí para nos ajudar. Mas o que eu quero deixar como pergunta é: a mentalidade de colonizado nos ajuda a criar tal espaço, onde todos podem ser ouvidos e respeitados? Sei que já saio da esfera da América do Sul ao perguntar isso e envolvo outros problemas, mas aí é onde conto com a colaboração de vocês que sempre comentam por aqui para construir pensamentos mais interessantes do que esses expostos nesse meu esboço. Outra pergunta: quando conversamos com qualquer alguém ‘internacional’, que por algum motivo ainda não esclarecido, não leia sobre a América do Sul, e conservamos certa arrogância e aquela faísca violenta inconfundível no olhar – que vi tantas vezes por aqui – ao responder, “não, nós não falamos espanhol” à dúvida do interlocutor, o que expomos sobre nós mesmos?

Tento estabelecer essa conversa virtual de boteco para antecipar minhas idas ao bar com vocês daqui a alguns meses. Obrigado pelos comentários maravilhosos deixados aqui desde a minha primeira postagem internacional, que muitas vezes acabaram se tornando muletas nas minhas horas de perna quebrada.

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Minha mãe sempre dizia

Desde sempre, me ensinaram. Desde sempre, desde quando ainda eu tomava chá gelado na mamadeira assistindo à televisão e depois de voltar da escola e antes de ler meus gibis. Me diziam uma coisa, também muitas coisas: seja razoável. Sempre. Quando mais se dá, mais se ganha.

Minhas professoras do primário eram incisivas: Nunca faça ninguém ficar triste, nunca faça ninguém chorar, nunca faça ninguém se sentir pequeno, nunca faça ninguém voltar para casa olhando para o chão ao invés de para cima e diretamente aos olhos de quem também volta para casa, nunca faça os batimentos de ninguém desnecessariamente acelerados, nunca seja a razão pela qual alguém arranca a própria pele, nunca seja o motivo pelo qual alguém acende mais um cigarro, nunca, nunca, nunca. Quanto mais se dá, mais se ganha.

Depois do primário, e você definitivamente não sabia disto, e você só pode dizer isto depois que se torna um adulto amargo, mas mesmo assim, sou uma adulta amarga e posso dizer, você aos aos 10 anos não sabe quem é, e não sabe para onde está indo, e confia no ônibus escolar, e não sabe o que vai fazer depois que a aula acabar e chegar em casa, não sabe o que vai fazer depois que as torradas com manteiga e o Nescau acabarem, não sabe exatamente o caminho de casa, pois, afinal, o ônibus da escola vai te levar aonde você deve ir, e você também não sabe balancear o quanto de família está em você e o quanto de você está em você, e, mesmo assim, assim e de repente, você escreve no seu caderno, no começo da aula de português, num dia absolutamente normal: “hoje é dia 27 de maio de 1998. Daqui a algum tempo, esse tempo vai passar e você vai estar em algum dia muito depois desse dia”. O tempo passa, passa mesmo, e, quem diria, estou em um trem no dia 23 de março, quase 24, de 2011, escrevendo de novo. Mas fica, fica sempre, porque você é pequeno e novo em 1998, e você ainda é pequeno e novo em 2011: Quanto mais se dá, mais se ganha. E fica, acreditem em mim, fica.

Professoras, professores, e também outros tutores, pelo quê vocês passaram na vida até chegarem a essa conclusão? Quanto mais de se dá, mais se ganha.

Hoje, quase 24 anos. Um dia para 24 anos. Dez anos desde a minha primeira ressaca amorosa, dez anos desde meu primeiro cigarro de cravo. Digo, com autoridade de quem viveu quase meio século: O quê passava pelas cabeças de vossas senhorias? “Quanto mais se dá, mais se ganha”.

Minha mãe é a mais realista de todos, no mundo todo, que me desculpem  professores e quaisquer outros tipos de mentores e também outros afins pelo que estou a dizer. Aos 16 anos, quando tudo me parecia lindo, e quando mantinha sérias convicções socialistas e ao mesmo tempo maravilhosamente utópicas, costumava entrar em sérias discussões com a Sra. Regina. Eu dizia, “por favor, mãe, pare de dizer merda, nem todas as pessoas são um bando de idiotas”.

Mãe, eu digo agora, “a maioria das pessoas são um bando de idiotas”. Talvez eu tive uma educação ingênua demais e nunca te escutei. Quanto mais se dá, mais será tirado de você.

Havia um ponto na vida em que eu dizia: jamais serei iludida como minha mãe. Não. Não. Minha mãe viveu muito mais décadas do que eu. Minha mãe se machucou muito mais do que eu. Não me dói aceitar o que minha mãe sempre me disse, desde o tempo do meu primeiro namorado até a minha primeira (e recente) grande decepção financeira e profissional.

Quanto mais se dá, mais será tirado de você.

Aceito concepções diferentes se alguém, algum dia, me provar o contrário. Não aceito retórica.

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The Jazz Festival Diaries. May 12, 2010 – Celebrating 10 years of tendinitis

Aqui está uma versão em Inglês que eu fiz do texto que eu fiz em português sobre o festival de jazz do ano passado. Tenho a honra de dizer que foi feita a pedidos do próprio Sid Peacock.

Aproveito para pedir desculpas pela falta de textos. Ando ocupada que nem tenho tempo para arrumar meu próprio quarto – não que eu fizesse isso quando me sobrava tempo -, mas já tenho muitos tópicos em mente pra continuar postando.

This is part 2 of 2 posts I wrote to describe my volunteering experience during the 2010 Cheltenham Jazz Festival. It was originally written in Brazilian Portuguese, which means I wouldn’t be surprised if you find yourself reading weird French-like punctuation styles and asking yourself “where the hell does this come from?”. Well, I’ll answer right now in order to avoid constraints. It comes from Brazil.

During the Chelt’am Festival – I deliberately decided this was the best spelling for the city’s name. When foreigners read it, they immediately try to pronounce the “enham”, and that doesn’t sound good at all – I had the opportunity to watch and meet unbelievable musicians. This happened during the very year I had my 10th anniversary of being a musician, which gave me much to think about.

One of the recurrent topics coming to mind was certainly the choice I made when I was 13 years old. From there to now, I have seen a utopian dream – one of those which you’ve also probably had as a teenager – going through profound changes and unwittingly becoming a career choice. A career choice of which, I must say, I’m not that proud of. However, I must also say that I would not choose any other path if I had the opportunity to.

When I was 13, my favorite bands were Nirvana and Green Day. And to me this whole thing of playing guitar (which is much more glamorous than playing bass or drums, my apologies to bassists and drummers) and having millions of hysterical screaming fans really did attract me. This was what led me to find a guitar teacher. Before you notice and point me the paradox yourself, I swear I didn’t see any contradiction in the fact that I am Brazilian, a woman, and – to make it all worse-, from a city named Curitiba. This is not a very glamorous place to be from if you’re born in Brazil. The most people will say about it is “Oh, you’ve got a great public transport system!”.

Well, the thing is, I was young and didn’t see a problem with any of these facts. I went to all the lessons and learned the basics pretty quickly. In about one year, all my little friends at school asked me to bring my guitar with me. They would always sing along whenever I started playing “Have you ever seen the rain”, or “Scar Tissue”. (Yes, Brazilians do love old stuff). Having noticed my progress, my guitar teacher decided to go for something else and introduced me to a whole new musical world.

He taught me who Marcos and Paulo Sérgio Valle were. I got to know and play the works of Tom Jobim, Toquinho and João Gilberto, all Bossa Nova artists. He introduced me to classical guitar and the works of Brazilian acoustic guitarists Guinga, Garoto and Baden Powell. It was amazing for me, realizing how rich in sounds Brazilian music was. However, it was about then when I realized nobody else would sing along whenever I brought the guitar to school. The only conclusion I was able to reach at the time was that I couldn’t play that well anymore.

What came next was my BA in Music. There, I learned what Jazz was and found myself exploring a whole new music world again. There, I also learned that the music I was making was for some reason only heard by other musicians – and that was actually what killed my music popularity at school.

Along with my music BA, I completed a BA degree in Journalism. This was because of a parallel passion I had, one that I would later found out would give me as little money and popularity as Music would. Therefore, by the end of my two degrees all I felt I had was tendinitis from all my playing. (You see, when you are born in Brazil, there is no prospect that you will be signed to a major label – most of our music is made in informal ways, as the formal industry releases a ridiculously small number of Brazilian artists per year. And as for journalists, there is no prospect that you will be an anchor at BBC or CBN, as you have the ridiculous accent as an obstacle. So, no glamour for us.)

That was when I had a great idea: doing a MA that could put both of my passions together and maybe following an academic career path. It was a good choice for a marginal like me. I now get to study what I like and practice my weirdly sounding music to my English neighbors (I bet they all know how to sing in Portuguese by now).

“Great, lovely Brazilian lady, but what does this all has to do with the Jazz Festival?”, you might be asking yourself by now. Well, as I’ve written here – ages ago, I admit – I thought about this all during the Festival. And it was in Chelt’am where I realized that even if my career prospect reserves no glamour and success music industry-wise, it sure can be something I cherish.

You see, in my head there were two teams in the Festival: the team of the popular ones who were able to gather thousands of people in a large concert hall and the marginal team. (Don’t get me wrong if you’re listed under the ‘marginal’ team. Let’s take marginal for what it really means: somebody who lives on the margins of something. In this case, what’s inside this hypothetical circle is the big music industry).

Well, my past gives me away. I supported the marginal team: Farmers Market, Sid Peacock, Polar Bear, legend John Scofield. I was amazed by them. On the other hand, the popular team put me to sleep. Lovely and monumental orchestrations of Frank Sinatra’s songs, to name one example, are always effective lullabies for me.

In my head, this is all proof of how marginal I am. And just to make things clear, I’m not proud of this. I don’t have any of those “I’m an alternative person and society misunderstands me” feelings. All I’m saying is that I will never sell billions of records and fill a stadium with millions of people like big acts do.  Best case scenario, I will have to see a million doctors in order to fix my pain problems.

But my tendinitis and my 10 years studying music prove themselves absolutely worth the hard work when I remember this occasion: I was chosen to volunteer at Sid Peacock’s gig. I didn’t know who he was until then. He came on stage with his outgoing manners, making peculiar jokes to explain his compositions with an accent I couldn’t identify at the time. When his orchestra started playing, I suddenly stopped everything I was doing. The strong instrumental arrangements, the intense and carefully written counterpoints between winds and strings, the rhythmically innovative motifs, all of this made me leave the concert thinking that I could not die before making compositions that would make an orchestra sound as good as that. It was one of those concerts which awakes a feeling of “I’d like to study music for 80 years” in you.

So, 70 more years to go. If you excuse me, I have to go back to my guitar and make sure my neighbors have learned proper Portuguese.

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Meirelles at Leeds

[...]

-  E vocês, o que estão fazendo aqui na Inglaterra?

- Eu estou estudando Indústria Musical e a Débora Composição, na Universidade de Liverpool.

- Ah, Liverpool. Já estive lá. É uma cidade muito escura, não?

- Muito. Parece que a luz do sol não chega direito àquele lugar.

Interrompendo a conversa, uma das professoras cutuca Meirelles com força, desviando sua atenção e puxando-o para mais uma das milhares de fotos que tira diariamente com seus fãs [e/ou tremendos baba-ovos, naquela ocasião]. Débora, que não vinha alimentando os melhores dos sentimentos em relação à tutora, perde finalmente sua paciência e decide ir embora. Não antes de terminar sua taça de vinho.

——

Foi mais ou menos assim- com exceção da utilização da crase no ‘aquele’ – a small talk que eu e a Débora tivemos com Fernando Meirelles na Universidade de Leeds, em Março desse ano. Por conta da minha enrolação, sei que não poderei escrever nada muito jornalístico e com ares de furo (juro que eu tinha um suspense sobre o próximo filme dele para dar de presente ao texto, mas agora todo mundo já sabe que ele está trabalhando na cinebiografia de Janis Joplin). Mas como experiências assim precisam ser registradas, aqui estou eu.

Foi engraçado o começo daquele dia. Eu e a Débora entramos na sala de conferências da universidade, cheia de alunos ingleses que estudavam língua portuguesa e que esperavam pela palestra. Como a gente quando chega aqui se surpreende com o pífio esforço – justificado, de certa forma – que alguns falantes de inglês fazem para entender outra língua, foi estranho ver o Meirelles chegando e dizendo um monte de coisa em português bem brasileiro para aquele pessoal. Mesmo que eles fossem estudantes do idioma, ainda parecia uma quebra de paradigma ver falantes de inglês entendendo e se expressando em outra língua. O Meirelles também teve essa impressão. Depois de 5 minutos falando, interrompeu-se:

- Vocês estão entendendo MESMO?

Quando todos riram e balançaram a cabeça afirmativamente, as minhas perguntas internas, que já estavam saltando bem alto por dentro, se calaram. Engraçado ver aquilo. Era a primeira vez que a gente entrava em contato direto com núcleos latino-americanos em universidades inglesas, e a primeira vez que a gente ouvia esses alunos falando (e falando bem). Todos devem experimentar essa quebra de paradigma um dia.

Mas sobre o Meirelles, o que ficou em mim dessa palestra foi a resposta que ele deu a uma das minhas perguntas. Eu, dentro da costumeira crise profissional dos 20 e tantos anos, sem saber que rumos poderia tomar, perguntei em algum momento se ainda havia espaço no mercado para produtores independentes como ele havia sido, antes de se tornar cineasta (aliás, se vocês não sabem, pesquisem sobre a produtora que ele tinha quando era bem novo, a Olhar Eletrônico. Vale a pena). Na minha cabeça, as portas do mundo todo haviam se fechado completamente, e quem as haviam fechado foram as grandes organizações, que hoje só deixam entrar pessoas conhecidas ou que passam por processos de seleção absurdos.

A resposta dele a um interior atormentado e oprimido de jovem de 23 anos:

- É claro que sim.

Disse isso com naturalidade, como se nada nunca no mundo tivesse impedido alguém de fazer algo.

- O importante é ter uma idéia boa. O resto vem depois. Os contatos vêm depois.

“Porra Meirelles, tu já filmou Rachel Weisz, Julianne Moore,  teu filme foi lançado pela Miramax – entre outras coisas que eu não consigo citar porque entendo patavinas de cinema – e você vem me falar que os contatos vêm depois?”, foi o que eu esbravejei por dentro na hora, já a ponto de explodir. Mas depois que eu parei pra lembrar da história dele, percebi as coisas por outro lado.

Quando ele montou a Olhar Eletrônico, logo depois que se formou, esse era o tipo de trabalho que ele dirigia: http://www.youtube.com/watch?v=ouD3VwhOZIw (no link, Marcelo Tas no papel de Ernesto Varela). Pena que não achei o vídeo que ele mostrou na palestra, “Subtração de Energia do Pi”. Totalmente amador e humorístico. Depois foi trabalhar com publicidade. Depois migrou para o cinema. Quando ele decidiu fazer Cidade de Deus, que foi o filme mais importante de sua carreira e que lhe trouxe visibilidade internacional, o que ele visava mesmo era conhecer uma parte da realidade que lhe era distante.

- O cinema é minha maneira de conhecer o mundo. Li o livro do Paulo Lins e me interessei por esse lado do Brasil. Decidi explorar aquele universo.

Ele mesmo financiou o filme. Era uma produção totalmente independente. Não tinha nenhum ator conhecido. Ele não esperava repercussão tamanha. Acho que apenas juntou o que havia aprendido durante a carreira com uma de suas boas idéias.

Agora dou razão a ele. O que ele disse durante a palestra foi que, quando se possui em si a sensação do poder fazer, de cidadania e de espaço na sociedade, qualquer um pode. A produção do filme culminou em uma escola de cinema na própria Cidade de Deus, onde, de acordo com o Meirelles, é oferecida essa oportunidade para jovens que nascem acreditando que o mundo não é para eles. Aqui justifico também todo o meu pensamento esquerdoso.

——

No trem de volta para Liverpool, passada a revolta impetuosa de Débora e a taça de vinho, segue a conversa, agora sem Meirelles.

- E o que faço com essa impressão de que nada é para mim, Débora?

- Relaxa. Você só precisa é de uma grande cara de pau e de algumas boas idéias.

 

Eu, Débora e Meirelles

 

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Guia de sobrevivência, capítulo 3 – Ucrânia

Assim que descer do avião e se animar por ver um caixa eletrônico logo depois do portão de desembarque, fique ligado. Depois de ter sacado 100 grivnas (perdão ucranianos, estou fazendo uma transcrição fonética bem pobre do nome do seu dinheiro) e pensado “ah, massa, com essa grana eu me viro aqui por uns 3 ou 4 dias”, sua primeira descoberta é que 3 minutos de internet no café do aeroporto lhe custam 15 grivnas. Aí você pensa, “que internet cara da porra”. Mas logo você descobre também que o ônibus para o centro de Kiev custa 25 grivnas. Aí você pensa, “caramba, como esses ucranianos sobrevivem com esses preços?”, e continua a viagem. Logo depois você descobre que, na verdade, havia sacado apenas 10 euros e que perdeu 2,5 euros na hora de sacar por causa das taxas. Aí você também descobre que não checar o câmbio das moedas antes de viajar é coisa que só tapados fazem.

Mas esse não será seu maior problema relacionado a dinheiro. Assim que chegar na estação central de Kiev, bem provavelmente muitos taxistas corpulentos que não falam inglês nenhum irão te oferecer corridas do jeito menos sutil possível no mundo. Você vai olhar para eles e balançar a cabeça negativamente, pensando “ainda bem que sou inteligentona e trouxe meu próprio mapa pra chegar na casa de hospedagem”. Até aí, ótimo, beleza. Você começa sua caminhada e não acha placa nenhuma de rua. Descobre que a maioria é colocada só em alguns pontos das ruas, e ainda sobre as paredes frontais dos prédios, que às vezes ficam meio escondidas por conta das árvores. Isso não te desanima, e você continua. Você tenta fazer algum sentido do alfabeto russo. Presta atenção aos mínimos detalhes daquelas letras. Quando finalmente entende a palavra, no que é provavelmente o ápice de sua intelectualidade, você descobre que não consegue achar a placa. Ela estava afixada no prédio 500 metros atrás, onde você havia passado há meia hora. Você então volta para a Estação Central, derrotada e aceitando entrar no taxi de um dos homens corpulentos.

Você então mostra o papel com o nome da rua para um dos dignos senhores, Ivana Franka em russo. Ele te leva à rua, e você pensa com raiva “puta merda, era só ter feito a volta na Estação”. Mas até aí, ótimo. Você sabe pela sua anfitriã que o preço da corrida seria 35 grivnas. Quando o querido senhor encorpado diz num inglês rústico e gritado, two hundred, você pensa, QUE MERDA É ESSA?!. Mas aí você se dá conta de que é apenas uma mulherzinha com os pulsos bem fracos de tocar violão, e que o seu telefone, que você tenta usar pra ligar para sua anfitriã e avisar que o taxista é louco e que ela precisa ir lhe resgatar, não funciona. Você, suando frio, entrega todo os seus 60 grivnas que lhe sobram e tenta dizer que é tudo que tem. Ele ainda diz, “Dólar? Euro?”, e você balança a cabeça negativamente de novo. Quando ele vai embora, você joga seus pertences no chão e grita antes dele sair, em português bem claro, “salafrário de merda!”. Tudo bem, são 5 da manhã mesmo, todos deveriam estar acordados.

O meu conselho, considerando o que acabei de contar, seria “turistas, não peguem taxi em Kiev a não ser que um ucraniano esteja com você”. Mas se um deles estiver com você, provavelmente a Ucrânia será o lugar de destino mais divertido fora da União Européia  que você poderá encontrar.

Quando estiver por lá, compre muitas cervejas. Elas custam de 8 a 10 grivnas, o que significa que você gastará 80 centavos de euro em uma garrafa bem grande de cerveja. Mas cuidado. Na Ucrânia, beber álcool em local público é proibido. Nesse ponto, você se identificará muito com os ucranianos e poderá até pensar por alguns momentos que está de volta ao Brasil. Eles simplesmente cobrem as garrafas com um saquinho opaco para driblar a lei. Eu até chamaria essa artimanha de “jeitinho ucraniano”. Você toma sua cerveja sossegado e ninguém olha dentro do seu saquinho.

Nunca compre iogurte no supermercado. A lei é, quanto mais bonita a embalagem lhe parecer, mais próximo do queijo velho o gosto será. “Ah, mas essa embalagem tem moranguinhos bonitinhos na frente, e é toda rosadinha”. Não, nunca se deixe levar pelo impulso. Acho que na Ucrânia, morangos são indicativos de “queijo estragado”. A gente só não sabe disso porque usa outro alfabeto.

Vá para as praias. Kiev é cortada por rios. Você se sentirá em casa depois de comprar uma cerveja de 500ml por 8 grivnas e sentar na areia olhando as pessoas nadarem. O melhor de tudo é que você encontrará aqueles cubículos de trocar de roupa do século passado, e mesmo que não tenho roupas para trocar, você vai entrar neles só para tirar e recolocar suas roupas e sentir a vibe “vintage”.

Os prédios soviéticos são o que há de melhor. Eles são imponentes, gigantes, quadrados, de uma beleza diferente. Me perdoem pela falta de piadinhas no parágrafo, mas de jeito algum alguém arriscaria tirar sarro daqueles senhores prédios depois de os ver.

Calma que ainda tem outros capítulos. Enquanto a vida européia e a RyanAir durarem, os guias continuarão.

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Faz um ano

O apego é uma escolha. Deixar a porta escancarada sempre e durante todos os minutos do dia e da noite é outra escolha. Ninguém manda ninguém gostar de alguém, não existe lei que garanta o espaço alheio dentro de cada um desses bilhões de corpos que andam por aí todos os dias. Por isso penso que a saudade é facultativa. Quem escolhe não sentir saudades, escolhe manter uma parte de si intocada e escolhe sempre metade.

Ver pessoas queridas partindo machuca. Deixar pessoas queridas para trás também machuca. E alguém poderia me dizer, foi escolha sua se apegar tanto assim a uma, a muitas pessoas. Você poderia ter fechado as portas, poderia ter quebrado as coisas todas em duas e jogado uma parte fora, por que assim então? Por que escolheu se deixar afetar ao ver a maneira como tudo ficou no seu lugar, antes do momento da partida, cada objeto intacto, novo e ao mesmo tempo usado e imóvel, cada peça de roupa e par de sapatos que não lhe pertenciam, mas que agora são seus e que mesmo assim você se nega a movê-los?

Por que dar algo para não se ter nada no final? Pra quê todas as fotos? Pra quê esse sentimento de vida interrompida, de final da tarde e de início da manhã, quando os raios de sol ainda parecem que doem a sair, pra quê carregar em si o final da primavera e o início do outono?

Parece que não vale a pena. Cada vez em que preciso me despedir, com a incerteza dentro de mim, chego mais próxima da certeza de que não vale a pena. Mas nada me faz mudar.

Eu gosto das fotos. Eu gosto dos sapatos. Eu gosto da manhã e também do outono.

Viver nessa cidade é um pouco difícil. Todos os seus companheiros decidem inevitavelmente ir embora, Liverpool é cidade de estudante. Você também irá embora. Não basta ter deixado pessoas para trás no lugar de onde veio, você terá de deixar os amigos daqui irem embora. A cena mais pesada é ver isso acontecer no momento em que chega o outono. Lembrar de todos que foram deixados em casa. Faz um ano. Ver as pessoas que se tornaram suas companheiras aqui deixando a vida que um dia foi nova para trás. Ver a vida nova tornando-se sólida.

Mas por que isso não valeria a pena? Por acaso vale a despedida sem o nó na garganta, vale o aceno sem o solavanco sentido no peito? Vale o reencontro sem o abraço interminável dos mais chegados, valem as conversas à distância sem a nostalgia própria dos que foram um dia separados por divisas e oceanos?

Um inteiro só é inteiro quando possui duas metades. Uma metade é só uma metade, nunca um inteiro, que me perdoem os matemáticos. Quem escolhe não sentir saudades escolhe sempre metade.

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O porquê do meu cansaço

“Veja bem Mariana, a diferença é que ela fala tudo que pensa e você pensa sobre tudo que fala”.

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